
Brasília, 20/04/2010 – Ativistas do Greenpeace despejam 3 toneladas de esterco na entrada do prédio da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), antes do leilão para a concessão da construção e operação da usina hidrelétrica de Belo Monte, no Pará.
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“Para Raimunda Gomes da Silva, a iminente construção de uma grande usina hidrelétrica aqui na Amazônia é um doloroso déjà vu.
Há cerca de 25 anos, a construção de outra represa a mais de 320 km a leste daqui inundou sua propriedade, causando uma praga de cobras venenosas, insetos e jaguares em sua terra, como contou, antes de submergi-la por completo.
Agora, depois de começar uma nova vida em Altamira, o governo diz que ela precisa deixar o local novamente, desta vez para abrir caminho para a usina de Belo Monte, que inundará um grande trecho desta cidade, desalojando milhares de pessoas.
“Esta usina é uma ameaça para mim, pois já não tenho mais a energia de antes”, disse Silva, 53 anos, cuja família de 11 pessoas divide uma casa de três cômodos com bananeiras no quintal. “Já não podemos mais investir e construir outra casa como esta.
Mas ela não tem muita escolha. A construção inicial da usina de Belo Monte, que será a terceira maior do mundo, está agendada para começar até o próximo ano.
A oposição persistente por parte de grupos ambientalistas e indígenas, até mesmo com a ajuda de figuras conhecidas como o diretor de cinema canadense-americano James Cameron, não conseguiu impedir o projeto orçado em US$ 11 bilhões, que irá produzir energia elétrica para grandes cidades, como São Paulo, enquanto inunda cerca de 520 km² da bacia do rio Xingu.
Comunidades indígenas afirmam que a usina irá devastar suas terras e forçar a saída de 12 mil pessoas de suas casas. Eles dizem que a usina reduzirá o nível do rio, destruindo sua indústria pesqueira tradicional.
A cidade de Altamira, acima da represa, enfrenta o problema oposto, com cerca de um terço do local previsto para acabar sendo inundado.
Recentemente, líderes indígenas regionais se reuniram aqui para planejar uma ocupação dramática do local de construção da usina, mas, depois de quatro dias de discussão e nenhum consenso, o protesto foi cancelado.
Membros de organizações não-governamentais que tentam impedir a usina estão começando a soar resignados. “Os grupos ainda estão divididos”, disse Christian Poirier, líder da campanha no Brasil da Amazon Watch, que participou da reunião. “Alguns líderes indígenas foram neutralizados por doações ou ameaças”, diz.
O governo tem se esforçado muito para garantir que a construção da usina, planejada há décadas, comece antes que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixe o cargo, no final deste ano.
Quando algumas das empresas privadas de construção e engenharia civil mais importantes do Brasil se mostraram inquietas quanto aos riscos financeiros do empreendimento, este ano, o governo aumentou seu grau de investimento – hoje, está financiando mais de três quartos do projeto.
Valter Cardeal, diretor de engenharia da Eletrobras, empresa estatal de eletricidade, disse que o projeto não teria impacto econômico negativo em qualquer comunidade indígena. Ele reconheceu que haveria uma redução no fluxo da água, mas não o suficiente para afetar a pesca, segundo ele.
Cardeal disse que Belo Monte traria “melhorias e avanços” para o povo indígena, incluindo saneamento, melhores serviços de saúde e educação, e “segurança territorial” para suas terras.
Quanto a Altamira, ele afirmou que as pessoas forçadas a sair seriam compensadas e a maioria se beneficiaria com o projeto.
Por exemplo, no bairro de cerca de 700 casas onde mora Raimunda, algumas casas são construídas sobre palafitas para evitar enchentes sazonais. Cardeal disse que a realocação tiraria esses residentes de tais “condições precárias, subumanas”.
Ele disse que o governo forneceria assistência a pequenos agricultores e que as empresas de construção tinham concordado em aportar US$ 280 milhões a um plano de desenvolvimento sustentável para a região. Essas garantias são contestadas por opositores à usina e muitos moradores.
Numa reunião realizada em março, líderes indígenas levantaram arco e flecha, ameaçando iniciar uma guerra para impedir a construção da usina. Porém, duas tribos, Xikrin-Kayapo e Parakana, desde então abandonaram sua oposição, citando temor de perder ajuda financeira do governo, disse Poirier.
Ele e outros envolvidos nas discussões acusam a Eletronorte de tentar dividir os grupos indígenas ao “comprar” líderes com presentes ou ao ameaçar negar a suas comunidades serviços de saúde e de outros tipos.
Tanto Cardeal quanto um porta-voz da Eletronorte negaram essas acusações.
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Moradores divididos
Alguns moradores têm esperança de que a usina gere emprego e recursos para este estado pouco povoado, o maior do Brasil. Durante a construção, a usina deve gerar cerca de 20 mil empregos, embora pelo menos no início muitos dos trabalhadores tenham de vir de outros lugares, de acordo com Elcirene de Souza, chefe do gabinete federal de empregos de Altamira.
Ela afirmou que 90% da mão de obra em Altamira não é qualificada para os trabalhos necessários para o projeto, e disse estar preocupada que o fluxo de entrada de trabalhadores induza à formação de gangues, aumento no uso de drogas e criminalidade, como já aconteceu com a construção de outras usinas.
No entanto, autoridades do governo disseram aos moradores que esperam evitar esses problemas, não criando uma vila separada para os trabalhadores, como já fizeram no passado, mas incorporando os trabalhadores à cidade.
Milhares de currículos de candidatos já estão sendo recebidos, cerca de 8.200 apenas nos quatro primeiros meses do ano, vindos de pelo menos cinco estados brasileiros, disse Souza.
Já moradores como Raimunda, céticos em relação às promessas do governo de pacotes de subsídios e realocação, estão preocupados principalmente com onde vão morar. Ela disse que o governo pagou pouco por sua última casa, apenas o suficiente para cobrir os custos dos materiais de construção. “Ou aceitamos o preço ou eles não oferecem nada mais”, diz.
Ela também teme pelo marido, que é pescador. “Faltam apenas dois anos para ele se aposentar, mas não temos certeza se ele poderá pescar por mais dois anos”, disse ela. “Você acha que os peixes ficarão por aqui? Os peixes sabem para onde fugir. Mas nós temos que ir aonde nos jogam.” Por Gabriela d’Ávila.
[Fonte: New York Times News\Yahoo]
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